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05-2026

Em Florença, comece pelas flores

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O primeiro encontro com Florença, na Itália, pode acontecer em meio às rosas. Para muitos viajantes, antes de ir ver o Davi, a famosa escultura de Michelangelo, é natural começar pelo Giardino delle Rose, que surge quase sem planejamento, como uma pausa logo depois de descer do ônibus em direção ao Piazzale Michelangelo. Foi exatamente assim comigo, numa excursão à cidade feita a partir de uma viagem pelo Mediterrâneo a bordo do navio MSC Splendida.

Não se trata de um parque isolado. A proximidade com o Piazzale Michelangelo faz dele uma das paradas mais comuns para quem chega de ônibus às áreas altas de Florença. Em vez de iniciar o passeio pelas charmosas ruas da cidade, ótimos restaurantes ou museus, começar pelo jardim oferece outra leitura de Florença. Portanto, não se apresse na descida para o exagero de arte que é a cidade. Respire primeiro o perfume das rosas e aproveite a beleza das esculturas do artista belga Jean-Michel Folon. Vale muito a pena, até para reduzir a ansiedade típica de quem chega a Florença.

O jardim foi criado em 1865 pelo arquiteto Giuseppe Poggi, responsável pela grande remodelação urbana de Florença quando a cidade se tornou capital do Reino da Itália. A intervenção de Poggi redefiniu a margem esquerda do rio Arno e criou também o Piazzale Michelangelo, conectado diretamente ao jardim. O terreno, antes pertencente aos padres oratorianos, acabou transformado em espaço ajardinado graças ao político e horticultor Attilio Pucci, que iniciou ali uma coleção de rosas ainda no século XIX.

Hoje, o Giardino delle Rose ocupa cerca de um hectare em terraços sucessivos voltados para o Arno. Na primavera, quando as roseiras entram em floração, o parque ganha outro ritmo, mas mesmo fora da estação principal o espaço continua interessante pela estrutura botânica e pelas perspectivas da cidade. Das áreas mais altas, a cúpula de Santa Maria del Fiore parece emergir entre pinheiros e muros históricos, enquanto o traçado compacto do centro renascentista revela a geografia estreita do vale florentino.

Desde 2011, o local abriga obras do artista belga Jean-Michel Folon, cujas figuras alongadas combinam muito com os caminhos inclinados e com a vista aberta sobre Florença. A presença das esculturas altera a percepção do espaço. O jardim deixa de ser apenas um local botânico e passa a funcionar também como percurso contemplativo. As obras aparecem entre roseiras, muros de pedra e oliveiras sem competir com a paisagem. Em vez de monumentalidade, Folon trabalha com escala humana e silêncio visual.

Não estranhe se encontrar um jardim japonês no meio do Giardino delle Rose. Criado em 1998, o espaço foi um presente de Kyoto, cidade-irmã de Florença, em colaboração com o templo zen Kōdai-ji e o paisagista Yasuo Kitayama. Mesmo discreta, essa área introduz outra linguagem paisagística no conjunto, com pedras, água e composição vegetal inspiradas na tradição japonesa. É uma intervenção pequena em extensão, mas significativa pela maneira como altera o ritmo do percurso.

Talvez seja justamente essa combinação que torne o Giardino delle Rose um começo tão interessante para uma viagem por Florença. O visitante encontra ali, ao mesmo tempo, urbanismo histórico, botânica, arte contemporânea e observação da paisagem. Antes mesmo de entrar em igrejas, galerias ou palácios renascentistas, a cidade já se apresenta através da encosta, das árvores e da luz sobre o Arno.

Por isso gosto tanto de viagens de navio, como essa pelo Mediterrâneo no MSC Splendida — que, por sinal, estará na próxima temporada brasileira de cruzeiros. Sempre existe a possibilidade de descobrir lugares inesperados, até jardins tão interessantes quanto este Jardim das Rosas de Florença, unindo o melhor do turismo com o melhor da Natureza. (Texto e fotos por Roberto Araújo)

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