05-2026
O aeroporto que virou vinhedo na Itália
Em breve, quem chegar a Florença, na Itália, terá uma supresa: o aeroporto da cidade estará debaixo de um vinhedo. Isso mesmo. Em Florença, na cidade das artes onde fica a famosa estátua de Davi de Michelângelo, um novo terminal do Aeroporto Amerigo Vespucci (isso mesmo, Amerigo, não Américo), projetado pelo escritório Rafael Viñoly Architects, prevê um vinhedo de aproximadamente 7,7 hectares instalado sobre o telhado da construção.

É um telhado verde e tanto. O vinhedo foi concebido como área agrícola funcional, com cultivo conduzido por produtores locais e produção de vinho integrada ao próprio edifício. As uvas colhidas no telhado deverão seguir para adegas instaladas dentro do terminal, onde ocorrerão as etapas de vinificação e envelhecimento.
O projeto faz parte da expansão do aeroporto de Florença, que deverá ultrapassar 5,9 milhões de passageiros anuais quando estiver concluído. A primeira fase tem entrega prevista para 2026, enquanto a conclusão integral está programada para 2035.

Um telhado agrícola sobre uma infraestrutura aeroportuária
A imagem de videiras crescendo sobre um terminal aéreo parece incompatível com as exigências técnicas de um aeroporto. Por isso, o projeto estabelece uma divisão precisa entre áreas produtivas e áreas ornamentais.
O telhado terá 38 fileiras de vinhas distribuídas sobre uma superfície inclinada. Apenas cerca de 2,4 hectares serão efetivamente destinados à produção de uvas. O restante utilizará espécies vegetais que reproduzem o aspecto visual do vinhedo sem gerar frutos, reduzindo riscos associados à presença de aves e resíduos orgânicos próximos às operações aéreas.

A solução exigiu estudos estruturais complexos. Um vinhedo instalado sobre uma cobertura demanda controle rigoroso de carga, drenagem e resistência ao vento. Há ainda o desafio do microclima: telhados acumulam calor, recebem maior incidência de vento e sofrem variações térmicas diferentes das encontradas em encostas agrícolas tradicionais.
Nesse sentido, o projeto se aproxima mais de uma infraestrutura híbrida do que de um edifício convencional. O aeroporto passa a funcionar simultaneamente como terminal, praça pública, cobertura vegetal e área de produção agrícola.

Claraboias entre as videiras
Entre as linhas de cultivo serão instaladas claraboias que permitirão a entrada de luz natural nos espaços internos do terminal. A cobertura vegetal atua como camada de isolamento térmico, reduzindo a absorção de calor e contribuindo para a eficiência energética do edifício.
Essa estratégia integra a meta de obtenção da certificação LEED Platinum, um dos principais referenciais internacionais para construções sustentáveis. Em vez de tratar o telhado verde apenas como elemento paisagístico, o projeto incorpora funções ambientais concretas: retenção térmica, controle hídrico e redução da temperatura superficial da cobertura.

A presença das videiras também altera a experiência espacial do terminal. O passageiro deixa de chegar a uma estrutura inteiramente mineral e passa a atravessar um edifício onde a vegetação participa da arquitetura de forma contínua.
A praça central como extensão da cidade
No centro do terminal haverá uma grande piazza inspirada nas praças urbanas italianas. O espaço foi pensado como ponto de encontro entre passageiros, moradores e usuários do complexo aeroportuário.
A proposta busca reduzir a separação tradicional entre aeroporto e cidade. Em vez de um espaço isolado e exclusivamente operacional, o terminal assume características de equipamento urbano aberto ao público.
Além disso, o projeto prevê conexão direta com o centro de Florença por meio de um sistema de transporte leve sobre trilhos. A ampliação inclui também a reorientação da pista existente em 90 graus, tornando-a mais adequada para aeronaves modernas e diminuindo o impacto sonoro sobre áreas residenciais do entorno.
Agricultura como linguagem arquitetônica
A presença de um vinhedo sobre um aeroporto revela uma mudança importante na arquitetura contemporânea: infraestruturas técnicas começam a incorporar paisagem produtiva como parte do edifício.
Em muitos aeroportos internacionais, a identidade local aparece apenas em restaurantes, lojas ou elementos decorativos. Em Florença, ela passa a fazer parte da própria engenharia do terminal. O cultivo das videiras transforma a cobertura em uma extensão simbólica da paisagem toscana.
Ao chegar à cidade, o visitante não encontrará somente pistas, fingers e salas de embarque. Encontrará também um vinhedo suspenso sobre concreto, aço e circulação aérea — uma tentativa de aproximar mobilidade global e agricultura regional dentro do mesmo horizonte arquitetônico.