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06-2026

Embrapa transforma Pancs em cultivares e amplia o potencial dessas hortaliças no Brasil

Durante muito tempo, diversas plantas alimentícias não convencionais permaneceram presentes em quintais, hortas familiares e tradições culinárias regionais, mas fora dos sistemas agrícolas mais estruturados. Agora, duas dessas espécies dão um passo importante rumo à ampliação de seu cultivo e consumo no Brasil.

A Embrapa lançou as primeiras cultivares de hortaliças do grupo das Pancs (Plantas Alimentícias Não Convencionais): a bertalha ‘BRS Tereverde’ e o caruru ‘BRS Ilekalu’. Desenvolvidas a partir de materiais genéticos conservados há mais de duas décadas pela Embrapa Hortaliças, as novas variedades chegam ao mercado após anos de pesquisa, seleção e validação agronômica.

Foto: Guilherme Maragno – Bertalha
Foto: Guilherme Maragno – Caruru

A apresentação oficial ocorreu durante a 31ª Hortitec, em Holambra (SP), feira que reúne os principais agentes da cadeia produtiva de hortaliças, flores e frutas da América Latina. O cenário reforça a importância da iniciativa para ampliar a presença das Pancs na agricultura brasileira.

Mais do que disponibilizar novas sementes, o trabalho oferece cultivares com identidade genética conhecida, padrão de qualidade definido e orientações de cultivo baseadas em estudos científicos. Esses fatores contribuem para ampliar a produção e fortalecer as cadeias produtivas dessas espécies.

Apesar do elevado valor nutricional e do potencial agronômico, muitas Pancs ainda possuem participação limitada no mercado brasileiro. A expectativa é que a oferta de sementes de qualidade incentive seu cultivo por agricultores familiares, hortas urbanas, escolas e produtores interessados em diversificar a produção.

Além de ampliarem as opções alimentares disponíveis, as Pancs despertam interesse por características que ganham cada vez mais relevância na agricultura contemporânea. Muitas dessas espécies apresentam boa adaptação a diferentes condições climáticas, resistência natural a pragas e doenças e menor necessidade de insumos agrícolas.

Foto: Gislene Alencar

Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, essas características são resultado de longos processos de adaptação ao ambiente ao longo da evolução das espécies. Em muitos casos, os compostos produzidos pelas plantas para sua própria defesa também estão associados a propriedades nutricionais e funcionais importantes para a alimentação humana.

A bertalha ‘BRS Tereverde’ é a primeira cultivar da espécie desenvolvida com foco em elevada produtividade e padronização. Conhecida também como espinafre-de-malabar, destaca-se pela capacidade de produzir mesmo sob temperaturas elevadas, chegando a tolerar condições próximas de 40 °C. Rica em fibras, vitaminas A e C, cálcio e ferro, a hortaliça pode ser consumida crua ou preparada em diferentes receitas.

Foto: Guilherme Maragno – Bertalha

Já o caruru ‘BRS Ilekalu’ é a primeira cultivar selecionada especificamente para o consumo das folhas. Um de seus principais diferenciais é o elevado teor de proteínas, que pode alcançar 33,8% nas folhas. A planta também se destaca pela rusticidade, crescimento vigoroso e adaptação a diferentes condições de cultivo, permitindo produção durante boa parte do ano em regiões de clima quente.

Foto: Guilherme Maragno – Caruru

Outro aspecto importante do trabalho é o reconhecimento do valor cultural dessas espécies. Muitas Pancs fazem parte da culinária tradicional de diferentes regiões brasileiras e carregam conhecimentos transmitidos entre gerações. Ao investir em pesquisa, conservação genética e desenvolvimento de cultivares, a ciência contribui não apenas para ampliar a produção, mas também para valorizar esse patrimônio alimentar.

As novas variedades são as primeiras de uma série de lançamentos previstos pela parceria entre a Embrapa Hortaliças e a Isla Sementes. Nos próximos anos, outras espécies do grupo, como almeirão-roxo e vinagreira, também deverão ganhar cultivares próprias.

O avanço sinaliza uma nova etapa para as Pancs no Brasil. De plantas muitas vezes restritas ao consumo local ou regional, elas passam a ocupar espaço cada vez maior nas discussões sobre biodiversidade, segurança alimentar, agricultura sustentável e diversificação da alimentação.

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