11-2026
Casa Cavanelas: obra de Niemeyer e Burle Marx abrirá ao público em 2028
Uma das mais importantes obras do modernismo brasileiro está prestes a ganhar uma nova função. A Casa Cavanelas, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, será a nova sede do Instituto Burle Marx e, pela primeira vez em sua história, abrirá as portas ao público. A inauguração está prevista para 2028.
Projetada em 1954 pelo arquiteto Oscar Niemeyer, com paisagismo de Roberto Burle Marx, para o engenheiro Edmundo Cavanelas, a residência reúne dois grandes nomes da arquitetura e do paisagismo brasileiros. Depois de cerca de sete décadas como propriedade particular, o imóvel foi adquirido por doadores que apoiam o trabalho do Instituto e desejam contribuir para a preservação e a divulgação do legado do paisagista. Em entrevista à Revista Natureza, Isabela Ono, diretora executiva do Instituto Burle Marx e filha do paisagista Haruyoshi Ono, amigo e parceiro de Burle Marx por quase 30 anos, revelou detalhes do projeto, que pretende transformar a propriedade em um centro de referência em arte, cultura, paisagismo e meio ambiente.

Um jardim para conhecer, explorar e vivenciar
A escolha da Casa Cavanelas como sede do Instituto não poderia ser mais simbólica. Afinal, além de abrigar os documentos e projetos de Burle Marx, o espaço permitirá que os visitantes tenham contato direto com uma de suas criações paisagísticas.
“O Instituto acredita que este é um lugar simbólico que materializa a experiência no legado Burle Marx, unindo o acervo e a oportunidade de estar dentro de um projeto de Burle Marx”, explica Isabela.
A proposta é que o público possa conhecer os desenhos e croquis do paisagista e, ao mesmo tempo, caminhar por um jardim concebido por ele, observando de perto as combinações de plantas, texturas, volumes, relevos e cores que caracterizam sua obra. Além da visita à residência original, o projeto prevê um circuito botânico com viveiro de mudas, composteira e trilha pela mata nativa preservada do entorno. Também estão previstas atividades de educação ambiental, aproximando os visitantes da biodiversidade e das ideias que orientaram o trabalho do paisagista.
“Para nós, é muito emocionante pensar neste espaço como um local de encontro, bem-estar e troca de conhecimento”, afirma Isabela.

Acervo ganhará instalações especiais
Criado em 2019, o Instituto Burle Marx é uma organização sem fins lucrativos dedicada à preservação e à divulgação do acervo documental produzido ao longo de sete décadas de trabalho de Roberto Burle Marx e seus colaboradores. Atualmente sediado no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o Instituto reúne aproximadamente 150 mil itens, incluindo mais de 2 mil projetos de jardins, além de desenhos, maquetes, cartas, fotografias, livros, recortes históricos e obras de arte.
Na Casa Cavanelas, esse patrimônio contará com uma nova reserva técnica, projetada para garantir condições adequadas de conservação. O público também terá acesso a parte do acervo por meio de exposições e de novas plataformas digitais. A estrutura incluirá biblioteca, auditório, galeria expositiva, café e loja. A programação deverá contemplar seminários, rodas de conversa, exposições e atividades educativas relacionadas à arte, à cultura e ao meio ambiente
A intenção, segundo Isabela, é fazer do espaço um laboratório de ideias e debates sobre questões contemporâneas, especialmente aquelas ligadas à natureza e à construção de cidades mais acolhedoras e sustentáveis.

Obras já começaram, com respeito à arquitetura e à natureza
As obras de implantação dos novos equipamentos tiveram início em julho de 2025. A adaptação está sob responsabilidade do arquiteto Thiago Bernardes e sua equipe, com o desafio de integrar as novas instalações à arquitetura modernista de Niemeyer, ao jardim original de Burle Marx e à mata nativa que cerca a propriedade. Segundo Isabela, a doação que viabilizou a aquisição do imóvel também contempla recursos para a primeira fase de implantação, incluindo os novos equipamentos e a preservação dos elementos históricos e paisagísticos da propriedade. O projeto, no entanto, é de longo prazo e dependerá da ampliação de parcerias e da captação de novos recursos para garantir sua continuidade.
“Estamos muito empenhados em manter, preservar e difundir este acervo de forma acessível no Brasil, democratizando e ampliando estes conceitos e inspirando projetos e iniciativas de bem-viver nas cidades, para pensarmos em futuros mais acolhedores e coletivos”, ressalta Isabela.
Um legado vivo para as próximas gerações

A abertura da Casa Cavanelas também deverá ampliar a atuação do Instituto na região de Petrópolis. Estão previstas parcerias com escolas, universidades e organizações da sociedade civil, além de iniciativas que relacionem educação ambiental, cultura e desenvolvimento local. O novo espaço se somará ao Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, onde o paisagista viveu e reuniu suas coleções particulares de plantas e obras de arte. Doado por ele ao governo federal em 1985, o Sítio é atualmente administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Embora sejam instituições distintas, o Sítio e o Instituto compartilham a missão de preservar e divulgar a obra de Burle Marx. Enquanto o primeiro conserva sua antiga residência, seus jardins e suas coleções, o segundo se dedica especialmente ao acervo produzido pelo escritório de paisagismo, que permanece em atividade. Para Isabela, filha de Haruyoshi Ono, a continuidade desse trabalho também representa um compromisso com a história construída por Burle Marx e seus colaboradores.
“Não é uma tarefa simples, é quase uma ação de resistência, resiliência e persistência em prol de uma causa, um trabalho que requer constante engajamento de diversos atores da sociedade, que comunguem com a nossa missão de manter vivo e ativo esse legado.”
Com a abertura prevista para 2028, a Casa Cavanelas promete oferecer ao público algo raro: a oportunidade de conhecer o pensamento de Roberto Burle Marx não apenas por meio de seus desenhos e documentos, mas também pela experiência de caminhar por um jardim criado por ele, onde arquitetura, paisagismo e natureza formam uma obra única.