10-2026
Congresso Paisagismo para Todos 2026 debate novos caminhos para o paisagismo e a adaptação climática
TEXTO E FOTOS: Aida Lima
O paisagismo como ferramenta de adaptação climática, a valorização da flora brasileira e a busca por soluções mais integradas à natureza estiveram entre os principais temas do 5o Congresso Paisagismo para Todos 2026. Realizado de 17 a 19 de outubro, no Ceaflor, em Jaguariúna bem na entrada para Holambra, interior de São Paulo, o encontro reuniu profissionais, pesquisadores e especialistas para discutir os desafios e as possibilidades de transformação da paisagem.

A grande novidade desta edição foi a realização do congresso, pela primeira vez, no Ceaflor, um dos maiores polos de comercialização de plantas do país, que conecta produtores ao mercado de paisagismo, atendendo profissionais, lojistas e consumidores finais. O novo endereço marcou o início de uma parceria promissora, com investimentos significativos do Ceaflor em infraestrutura e organização, em conjunto com os realizadores do congresso, para receber o evento. A participação ativa dos produtores e viveiristas do centro de comercialização também foi um diferencial, proporcionando a oportunidade de apresentar suas plantas, produtos e serviços aos visitantes do congresso, da Ceaflor Expo Garden e da Mostra de Paisagismo.
Com o tema “Paisagismo: Novos Caminhos”, a programação de três dias combinou apresentações técnicas, experiências internacionais, oficinas e atividades de campo. As discussões abordaram desde a fisiologia e a nutrição das plantas até estratégias de planejamento urbano capazes de contribuir para a redução dos impactos das mudanças climáticas.

Muita informação e práticas nas palestras
A relação entre conhecimento científico e prática profissional marcou o primeiro dia do congresso. O engenheiro agrônomo Emerson Rogério Salviani conduziu um workshop sobre nutrição vegetal e técnicas de plantio, destacando a importância de compreender as necessidades nutricionais das plantas e as condições do solo para garantir seu desenvolvimento saudável. Durante a apresentação, chamou atenção para o papel da matéria orgânica, tanto no fornecimento de nutrientes quanto na melhoria das condições do solo.

“Se você não tiver nada para colocar no plantio, coloque matéria orgânica”, recomendou Salviani.
Na demonstração prática de plantio de uma jabuticabeira, Salviani apresentou cuidados com o preparo da cova, a adubação, a drenagem e o posicionamento correto da árvore. Um dos alertas foi sobre a profundidade do plantio.
“Outra coisa que mata jabuticaba uma atrás da outra é enterrar o colo da planta”, afirmou, explicando que o soterramento dessa região pode comprometer a circulação de substâncias e prejudicar a sobrevivência da árvore.

A irrigação também mereceu atenção. Em vez de estabelecer volumes fixos de água, o agrônomo recomendou observar a umidade do torrão e as condições de cada planta.
“A irrigação de uma espécie recém plantada pode ser todo dia, mas não existe regra. Ela tem que ficar com o torrão úmido, não encharcado”, orientou.

A programação prosseguiu com palestras de Pam Faccin, André Graziano e Júlio Barea Pastore, além de um momento dedicado à integração entre os participantes.
Flora brasileira e novas possibilidades estéticas
A valorização das espécies nativas foi um dos assuntos abordados pela arquiteta paisagista Pam Faccin, que apresentou a palestra “O potencial estético da flora brasileira no paisagismo”. A partir de expedições por diferentes biomas brasileiros e de pesquisas desenvolvidas em seu jardim experimental, a profissional defendeu a ampliação do repertório vegetal utilizado nos projetos paisagísticos. Para ela, o uso da flora nativa não deve ser compreendido apenas como uma resposta às demandas ecológicas, mas também como uma oportunidade de explorar novas possibilidades estéticas.

“É absolutamente deslumbrante a beleza da flora brasileira”, afirmou Pam Faccin.
Um dos pontos centrais da apresentação foi a necessidade de questionar os padrões estéticos que influenciam a escolha das espécies nos jardins.
“A beleza é uma construção cultural. Quanto menor o repertório, maior o poder dos padrões impostos sobre aquilo que você aprende”, observou.

Pam trouxe muitas referências de paisagens naturais brasileiras e explicou como a observação das associações vegetais, das formas, texturas e movimentos pode orientar novas composições. Esse trabalho também está presente no projeto Flores do Brasil, desenvolvido em seu jardim experimental, onde pesquisa possibilidades de utilização das espécies nativas e compartilha conhecimentos com outros profissionais.
A paisagista também chamou atenção para uma percepção ainda comum no mercado: a de que é difícil encontrar espécies nativas disponíveis para projetos paisagísticos. Com trabalhos desenvolvidos em diferentes estados brasileiros, Pam afirmou que essa já não é necessariamente uma barreira e destacou a existência de produtores capazes de atender a diferentes demandas.
“O meu maior problema é o frete, o caminhão e a mão de obra para fazer o jardim”, contou, ao explicar que os principais desafios de seus projetos estão mais relacionados à logística e à implantação do que à disponibilidade de plantas. Nesse contexto, ressaltou a importância de o paisagista conhecer os viveiros, acompanhar a produção e manter um relacionamento próximo com os produtores. Essa parceria permite conhecer melhor as espécies disponíveis, planejar a aquisição das plantas e até viabilizar a produção antecipada de determinadas variedades para atender às necessidades dos projetos.
Para Pam, ampliar o repertório vegetal dos profissionais também significa fortalecer o mercado de plantas nativas. Quanto mais os paisagistas conhecem, especificam e utilizam essas espécies, maior é o estímulo à sua produção e comercialização, criando novas oportunidades para toda a cadeia do paisagismo.
Paisagismo e infraestrutura verde para cidades resilientes
Um dos destaques internacionais do congresso foi a participação do arquiteto paisagista e urbanista chinês Dong Wang, diretor do Centro de Design de Ecocidades da Turenscape e vice-diretor de um centro de inovação em soluções baseadas na natureza ligado à Universidade de Pequim. Especialista em planejamento ecológico e cidades-esponja, Wang apresentou projetos desenvolvidos na China e em outros países para demonstrar como a paisagem pode desempenhar funções essenciais na gestão das águas urbanas. O conceito de cidade-esponja propõe substituir parte das soluções convencionais de drenagem por sistemas que permitam absorver, armazenar, desacelerar e purificar a água da chuva. Em vez de depender exclusivamente da canalização de rios e de estruturas rígidas de concreto, a abordagem busca incorporar os processos naturais ao planejamento urbano.

“O segundo princípio é desacelerar o fluxo da água. Isso é totalmente contra a infraestrutura convencional”, explicou Wang, ao mostrar como áreas verdes e sistemas naturais podem ajudar a reduzir a velocidade do escoamento e os impactos das chuvas intensas.
Entre os exemplos apresentados esteve o Benjakitti Forest Park, em Bangkok, na Tailândia, implantado em uma antiga área industrial. O projeto transformou o espaço em um parque que combina áreas de convivência, recuperação de habitats, armazenamento de água e processos naturais de purificação.

Wang também apresentou experiências de recuperação de corredores fluviais e de adaptação de espaços urbanos sujeitos a inundações. Os projetos demonstraram como áreas verdes podem funcionar simultaneamente como infraestrutura ambiental, espaços públicos e ambientes de conservação da biodiversidade. A apresentação destacou ainda a importância de recuperar conhecimentos tradicionais de manejo da água e adaptá-los às tecnologias contemporâneas.

“Nós desenvolvemos e atualizamos essa sabedoria tradicional com métodos científicos”, afirmou, ao explicar como princípios antigos de convivência com a água podem ser incorporados à engenharia ecológica moderna.

Conhecimento técnico e experiências práticas
Além da apresentação de Dong Wang, o segundo dia teve palestras de Manoela do Nascimento, Duarte Vaz, do EMBYÁ, e Carolina Sampaio, do Instituto Terra. O encontro também abriu espaço para atividades práticas, incluindo o workshop de paisagismo naturalista conduzido por Júlio Barea Pastore, agrônomo, paisagista e professor da Universidade de Brasília (UnB). O trabalho de Pastore aborda a criação de jardins que acompanham as dinâmicas naturais e as variações sazonais, com atenção à escolha de espécies, aos processos de implantação e à manutenção. Entre suas experiências está o Jardim de Sequeiro, desenvolvido na UnB, que explora possibilidades de composição vegetal adaptadas às condições ambientais.

O agrônomo, paisagista e professor da UnB Júlio Barea Pastore abordou o paisagismo naturalista e utilizou o Jardim de Sequeiro, desenvolvido na universidade, como exemplo de composição vegetal que respeita os ciclos naturais e as condições ambientais
Feira e mostra aproximam profissionais e produtores

Paralelamente ao congresso, a primeira edição da Ceaflor Expo Garden reuniu empresas e fornecedores de produtos e soluções para jardinagem e paisagismo. A feira ampliou as oportunidades de contato entre paisagistas, produtores e empresas do setor.




A programação contou também com a Mostra de Paisagismo, realizada nos espaços dos produtores associados dentro do pavilhão do Ceaflor. A iniciativa reuniu apresentações organizadas das plantas e variedades comercializadas por cada expositor, permitindo aos visitantes conhecer de perto a diversidade da produção, observar as características das espécies e estabelecer contato direto com os viveiristas. A mostra reforçou a proposta de aproximar os profissionais do paisagismo de quem produz e fornece as plantas utilizadas nos projetos.

A Mostra de Paisagismo, realizada nos espaços dos produtores associados ao Ceaflor, apresentou a diversidade de plantas e variedades disponíveis, aproximando paisagistas e viveiristas e valorizando a produção ornamental








Da teoria à prática
O terceiro e último dia do congresso foi dedicado ao empreendedorismo e às experiências em campo. A programação incluiu visitas guiadas a produtores, com destaque para a visita à J Pompeo Botânica Ornamental, em Limeira. A proposta foi proporcionar aos participantes a oportunidade de conhecer de perto processos produtivos, práticas de cultivo e aspectos do mercado de plantas ornamentais, estabelecendo uma conexão entre os conhecimentos apresentados nas palestras e sua aplicação profissional.
Ao reunir diferentes áreas de conhecimento, o Congresso Paisagismo para Todos 2026 evidenciou a diversidade de temas que hoje fazem parte da atividade paisagística. Da escolha de espécies e do manejo do solo ao planejamento de infraestruturas verdes em escala urbana, as apresentações apontaram para uma atuação cada vez mais multidisciplinar. O encontro também reforçou a importância da pesquisa, da troca de experiências e da aproximação entre profissionais, pesquisadores e produtores para ampliar as possibilidades do paisagismo brasileiro.
