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05-2026

Das bromélias aos tecidos: as fibras ancestrais que unem arte, sustentabilidade e tradição na América Latina

Muito antes do conceito de design sustentável ganhar espaço no mundo contemporâneo, povos indígenas e
comunidades tradicionais da América Latina já transformavam plantas nativas em tecidos, cordas, bolsas e
artefatos utilitários. Entre essas espécies, as bromélias ocupam um papel de destaque, fornecendo fibras
resistentes, leves e duráveis utilizadas há gerações em práticas artesanais profundamente conectadas ao
território e à identidade cultural.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o chaguar, nome popular da espécie Bromelia hieronymi, nativa do norte
da Argentina. Suas fibras resilientes e maleáveis são extraídas tradicionalmente pelas mulheres do povo indígena
Wichí, que utilizam a planta para produzir as chamadas yicas — bolsas tecidas manualmente que carregam tanto
funcionalidade quanto memória ancestral.

Imagem: Wikimedia Commons – Bromelia hieronymi

O processo de produção é inteiramente artesanal. As folhas da bromélia são coletadas, raspadas e transformadas
em fibras delicadas que depois são fiadas e tingidas, muitas vezes com pigmentos naturais. Mais do que técnica,
o trabalho com o chaguar representa um conhecimento transmitido entre gerações, reforçando vínculos culturais,
espirituais e comunitários.

Nas últimas décadas, essa arte têxtil ganhou reconhecimento internacional graças ao trabalho de coletivos indígenas argentinos, como o grupo Silät, liderado pela artista Claudia Alarcón. As peças produzidas unem tradição e arte contemporânea, ampliando a visibilidade das técnicas ancestrais e do protagonismo feminino indígena.

Mas o chaguar não é o único exemplo. Diversas bromélias da América Latina também desempenham funções importantes
na produção de fibras naturais e no fortalecimento das economias locais.

No Brasil, uma das espécies mais conhecidas é o caroá, a Neoglaziovia variegata, típica da Caatinga nordestina. Suas folhas fornecem fibras extremamente resistentes utilizadas por comunidades tradicionais e quilombolas na produção de cordas, chapéus, bolsas, redes e tapetes. O caroá também está presente em iniciativas comunitárias de geração de renda e preservação cultural em Pernambuco e outras regiões do sertão.

Imagem: Flickr_ Neoglaziovia variegata

Outra espécie de destaque é o curauá, ou Ananas erectifolius, nativo da Amazônia. Historicamente utilizado por povos indígenas para fabricar cordas, amarrações e utensílios, hoje o material desperta interesse da indústria sustentável por sua resistência comparável à fibra de vidro. Atualmente, o curauá já é estudado para aplicações em bioplásticos e componentes automotivos.

Imagem: Divulgação – Ananas erectifolius

Na Colômbia e em partes da América Central, a Aechmea magdalenae produz uma das fibras vegetais mais finas e valorizadas do continente. Conhecida como pita, ela é utilizada em bordados detalhados, redes de pesca e peças artesanais de alto valor agregado.

Imagem: Andreas Kay_iNaturalist_Aechmea magdalenae

Já a Pseudananas sagenarius, encontrada no Brasil, Paraguai, Bolívia e norte da Argentina, fornece fibras longas usadas tradicionalmente em cordoaria pesada, redes de dormir e tecidos rústicos.

Imagem: Wikimedia Commons_Pseudananas sagenarius

Além da importância cultural, o uso dessas fibras reforça discussões atuais sobre sustentabilidade e design consciente. As práticas tradicionais associadas às bromélias demonstram como é possível equilibrar uso de recursos naturais, conservação ambiental e geração de renda local. O manejo das plantas geralmente respeita os ciclos naturais e contribui para a preservação dos territórios onde essas comunidades vivem.

Especialistas apontam que essas fibras vegetais representam um elo importante entre etnobotânica, biodiversidade e inovação sustentável. Ao mesmo tempo em que mantêm vivas práticas ancestrais, elas oferecem alternativas ecológicas para setores que buscam reduzir impactos ambientais e substituir materiais sintéticos.

No entanto, a continuidade dessas tradições enfrenta desafios. Mudanças climáticas, perda de território, pressões econômicas e degradação ambiental ameaçam tanto as espécies utilizadas quanto os modos de vida das comunidades que preservam esse conhecimento há séculos.

Para quem deseja conhecer mais sobre a força simbólica e artística dessas fibras, uma boa oportunidade é visitar a exposição Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo”, em cartaz no MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand até 2 de agosto de 2026.

A mostra reúne obras têxteis produzidas coletivamente pelo grupo indígena Silät e apresenta como o chaguar ultrapassa o campo do artesanato para ocupar também os espaços da arte contemporânea, sem perder suas raízes ancestrais.

Divulgação MASP James Cohan GalleryIzzy Leung
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