07-2026
Plantas consideradas extintas em São Paulo são redescobertas
Durante décadas, ninguém registrou a presença de duas gramíneas nativas do Cerrado paulista. Desde 2016, elas eram classificadas oficialmente como “presumivelmente extintas” no estado. Agora, uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e da Universidade de São Paulo (USP) revelou que as espécies ainda sobrevivem na natureza.
As plantas, Aristida ekmaniana e Aristida macrophylla, foram encontradas em áreas de Cerrado nos municípios de Araraquara, São Carlos e Itirapina. Embora muita gente associe São Paulo apenas à Mata Atlântica, o estado também possui remanescentes de Cerrado, bioma que abriga uma rica diversidade de plantas e animais, mas que perdeu grande parte de sua cobertura original.
Um engano levou à descoberta
O reencontro com as espécies aconteceu quase por acaso. Durante um projeto de recuperação do Cerrado, o estudante Lucas Dias Sanglade coletou as gramíneas acreditando que fossem espécies invasoras, comuns em áreas degradadas. Somente depois, ao comparar as amostras com o acervo do Herbário Maria Eneyda P. Kauffmann Fidalgo, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), especialistas perceberam que se tratava justamente de duas plantas consideradas desaparecidas do estado. Segundo a pesquisadora do IPA, Cíntia Kameyama, a identificação feita pela taxonomista Regina Tomoko Shirasuna confirmou que as plantas eram espécies criticamente ameaçadas e classificadas como presumivelmente extintas.
Mudança na lista de espécies ameaçadas
A Aristida ekmaniana havia sido registrada pela última vez em São Paulo no início da década de 1960. Já a Aristida macrophylla foi encontrada em pequenas populações fragmentadas em São Carlos e Itirapina.


Com os novos registros, os pesquisadores propõem que as duas deixem a categoria de “presumivelmente extintas” e passem a integrar a lista de espécies em perigo. A mudança deverá ser analisada na próxima atualização oficial da lista paulista de espécies ameaçadas, prevista para 2027.
Áreas degradadas também podem guardar espécies raras
Além da redescoberta, o estudo reforça uma mensagem importante: ambientes considerados degradados nem sempre perderam toda a sua biodiversidade. Segundo os pesquisadores, acostamentos de rodovias, pastagens e terrenos abertos podem servir como refúgio para espécies raras, especialmente quando há poucos levantamentos botânicos nessas áreas.

Para a equipe, o caso também demonstra a importância das coleções científicas, dos herbários e do trabalho de campo. Muitas espécies podem permanecer décadas sem serem registradas, não porque desapareceram, mas porque ainda não foram encontradas novamente.
“O Cerrado paulista ainda é pouco conhecido. Muitas pessoas associam a conservação apenas à Mata Atlântica e esquecem a enorme riqueza de espécies desse bioma”, destaca a pesquisadora Cíntia Kameyama.