05-2026
Como o Japão criou uma epidemia de alergias ao plantar milhões de árvores iguais
Uma política de reflorestamento adotada pelo Japão no pós-guerra está no centro de uma crise ambiental e de saúde pública que afeta milhões de pessoas até hoje. A estratégia, iniciada nos anos 1950, incentivou o plantio em larga escala de duas espécies nativas de crescimento rápido: o cedro-japonês (Cryptomeria japonica) e o cipreste-hinoki (Chamaecyparis obtusa). Décadas depois, essas florestas homogêneas passaram a liberar quantidades enormes de pólen, provocando surtos anuais de rinite alérgica em quase metade da população japonesa.

A decisão surgiu após a Segunda Guerra Mundial, quando montanhas inteiras haviam sido desmatadas para fornecer madeira e combustível. O governo japonês precisava recuperar rapidamente as áreas degradadas e escolheu espécies capazes de crescer depressa e abastecer futuramente a construção civil. O problema é que o modelo adotado priorizou produtividade e velocidade, deixando em segundo plano a biodiversidade. Em vez de reflorestar com diferentes árvores nativas, vastas regiões passaram a ser ocupadas por monoculturas florestais.

Com o amadurecimento dessas árvores, especialmente após os 30 anos de idade, a produção de pólen aumentou drasticamente. O cedro-japonês (Cryptomeria japonica), conhecido no Japão como “sugi”, tornou-se o principal responsável pelas alergias sazonais no país. O pólen é leve, se espalha facilmente pelo vento e alcança grandes cidades como Tóquio, Osaka e Kobe. Em alguns períodos do ano, nuvens visíveis de pólen saindo das florestas viralizam nas redes sociais japonesas, acompanhadas de alertas para uso de máscaras e medicamentos antialérgicos.
Hoje, as plantações de cedro e cipreste cobrem cerca de 10 milhões de hectares, o equivalente a aproximadamente um quinto do território japonês. O impacto econômico também é significativo. Além dos gastos médicos, milhões de trabalhadores sofrem redução de produtividade durante a temporada de pólen. Diante da dimensão do problema, o governo japonês classificou oficialmente as alergias ao pólen como uma questão social nacional em 2023 e anunciou metas para reduzir em 20% as áreas ocupadas por cedros nas próximas décadas.

Especialistas em manejo florestal alertam, porém, que simplesmente cortar árvores não resolve o problema. A remoção sem planejamento pode aumentar riscos de erosão, deslizamentos e perda da capacidade das florestas de armazenar carbono. O desafio atual do Japão é substituir parte dessas monoculturas por áreas mais biodiversas, combinando árvores de diferentes espécies e idades. Algumas cidades japonesas já iniciaram projetos de reflorestamento misto e manejo sustentável, utilizando a madeira retirada para produção de energia, móveis e construção civil.

O caso japonês virou exemplo internacional sobre os riscos de projetos de reflorestamento focados apenas em produtividade. Para botânicos e paisagistas, a principal lição é clara: plantar árvores não basta. A diversidade vegetal é essencial para manter o equilíbrio ecológico, reduzir pragas e doenças e evitar impactos futuros na saúde humana. Em tempos de mudanças climáticas e expansão de programas de recuperação ambiental no mundo todo, o episódio reforça a importância de unir reflorestamento, biodiversidade e planejamento de longo prazo.