05-2026
Um mel que não vem das flores: o fenômeno da bracatinga
Na Floresta com Araucária, no Sul do Brasil, um dos fenômenos mais singulares da natureza revela uma cadeia de relações pouco comum no mundo das abelhas. Ali, o chamado mel de melato da bracatinga não nasce das flores, mas de uma interação complexa entre árvore, inseto e polinizador.
Tudo começa na Mimosa scabrella, espécie típica das regiões mais frias do país. Em seus troncos vivem cochonilhas, como a Stigmacoccus paranaensis, que se alimentam da seiva da árvore. Ao sugar esse recurso, esses insetos liberam uma substância açucarada conhecida como melato — pequenas gotas que escorrem pela casca da árvore.

É justamente esse “excesso doce” que chama a atenção das abelhas. Em vez de buscar néctar nas flores, elas coletam o melato diretamente no tronco da bracatinga e o transformam em um mel escuro, encorpado e de sabor menos adocicado que o convencional. O resultado é um produto singular, muitas vezes chamado de “ouro negro” das florestas.

Diferente do mel floral tradicional, o mel de melato apresenta alto teor de minerais, especialmente potássio e magnésio, além de propriedades antioxidantes e ação anti-inflamatória. Também possui menor índice glicêmico, o que o torna um produto de interesse crescente dentro e fora do Brasil.
Esse sistema natural — árvore, cochonilha e abelha — sustenta uma rede ecológica complexa. O fenômeno ocorre principalmente entre fevereiro e julho, com pico de produção nos meses de abril e maio, e segue um ciclo bienal: apenas nos anos pares há produção significativa de melato. Nos anos ímpares, o sistema entra em fase de reposição biológica, reduzindo a disponibilidade da substância.

Mais do que um produto apícola, o mel de melato da bracatinga é resultado de uma engenharia ecológica sofisticada, reconhecida inclusive por sua Indicação Geográfica no Planalto Sul Brasileiro, que abrange áreas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.
Em meio às florestas de araucária, esse fenômeno reforça como biodiversidade, ciência e produção sustentável estão profundamente entrelaçadas — e como relações invisíveis a olho nu podem gerar um dos méis mais únicos do mundo.